Resiliência
O termo resiliência vem da Física e refere-se à capacidade que um corpo tem de sofrer uma deformação pela ação de um agente externo e voltar à sua forma natural. Assim, também, quando um indivíduo se depara com um evento estressor, vivencia o seu impacto, mas não vem a desenvolver sintomas crônicos e volta à qualidade satisfatória de vida, o que significa que ele possui resiliência. A percepção de si e das capacidades de lidar com o trauma são os mais importantes preditivos de resultados satisfatórios. Resiliência envolve flexibilidade, otimismo, ousadia, autoestima e autoconfiança para resignificar o que ocorreu a favor do crescimento humano. A resiliência não é um estado específico, mas uma qualidade dinâmica de autorrenovação diretamente ligada aos princípios naturais de adaptação à vida.
A resiliência é uma qualidade dinâmica de autorrenovação ligada aos princípios naturais de adaptação à vida
Todos têm a possibilidade da autorrenovação por meio do desenvolvimento de habilidades adaptativas ao enfrentamento. Onde há uma vontade, haverá um caminho para a resiliência. Para isso, é importante seguir alguns passos: o primeiro é ver os problemas como oportunidades de crescimento; o segundo consiste em integrar (do latim integrare: tornar-se inteiro) as capacidades e recursos pessoais ao enfrentamento; o terceiro envolve a autoproposição de um objetivo desafiador; o quarto é trilhar o caminho com o foco no novo objetivo (veja quadro Sentido de coerência interna)<
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| Durante a terapia, paciente e terapeuta chegam ao consenso de como o indivíduo deverá sair do processo terapêutico. Não é incomum pessoas chegarem com expectativas irreais, como a vontade de esquecer um acontecimento do passado, apagar algo da memória |
Um bom exemplo de superação nos traz um paciente que foi sequestrado e passou 15 dias sem ouvir voz alguma. Mesmo isolado absolutamente, o paciente pediu caneta e papel para escrever sobre suas experiências, amigos e família. A escrita o ajudou a elaborar o que estava acontecendo e contribuiu para sua recuperação após o sequestro.
Outro exemplo de bom processamento durante a ocorrência traumática nos traz um casal que sofreu um sequestro relâmpago. Carina permaneceu apavorada durante as 3 horas que durou o sequestro. Diego ficou da mesma maneira, porém apenas na primeira meia hora. Enquanto Carina vivenciava o desespero, Diego procurou dialogar internamente com perguntas e respostas para si mesmo:
"Meu Deus, isso não parece real, o que está acontecendo aqui? É real sim, estamos correndo risco de vida e eles não estão brincando! O que eles esperam de nós, como devo agir? Droga... nunca pensei nisso antes, nunca achei que fosse acontecer... Como devo agir? O que devo fazer para eu e minha mulher sairmos vivos? Reagir, nem pensar! Acho que devo tentar conversar... Falar o quê? E se eu falar alguma coisa que eles não gostem? Acho melhor só responder o que eles perguntarem. Ah, o tom de voz! Acho que se eu passar calma eles também ficarão calmos. É isso, vou tentar!"
Criar uma referência mais clara sobre o que acontecia e alguma estratégia de conduta trouxe ao marido um sentimento subjetivo de certo controle sobre a situação, mesmo que a variável determinante do risco de morte não estivesse "nas mãos do casal". Diego teve os sintomas pós-trauma atenuados mais cedo que Carina.
A terapia de exposição
A ciência psicológica tem dado maior atenção às terapias de exposição (imaginária e in vivo) para a reestruturação cognitiva de eventos passados sob uma nova perspectiva de compreensão e aprendizagem. O componente essencial do tratamento de exposição envolve repetidos confrontos com as memórias do evento estressor (exposição às memórias e imagens traumáticas) para propiciar a reescrita do trauma alinhada à superação.
Em particular, a Terapia de Exposição e Reestruturação Cognitiva é indicada como a abordagem de escolha ao tratamento de indivíduos com memórias traumáticas. Ao integrar as contribuições das neurociências, desenvolvi um programa psicoterápico, que tem se mostrado eficaz à superação de traumas psicológicos. Durante o processo, o paciente é submetido a uma minuciosa anamnese (histórico clínico) e, em seguida, a sessões de reestruturação cognitiva, intercaladas por sessões integrativas, nas quais o exercício com as novas sínteses terapêuticas é avaliado e orientado
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O procedimento terapêutico inclui uma importante fase chamada de Psicoeducação, que abrange quatro etapas: (1) normalização, na qual o terapeuta demonstra continência e compreensão em relação aos sintomas manifestados, normalizando essas respostas na visão do paciente; (2) legitimação, na qual há um reforço da fase anterior para que o paciente entenda que o comportamento por ele manifestado pode ser esperado diante da magnitude e do impacto do evento traumático sofrido; (3) descrição das respostas, quando o terapeuta utiliza as referências do manual de diagnóstico DSM-IV e investiga se o paciente também apresenta outros sintomas, além dos citados; (4) procedimento terapêutico, quando o paciente recebe explicações sobre a natureza subjetiva do trauma, a dificuldade de tradução narrativa dos fragmentos sensoriais - um dos objetivos da terapia é ajudar o paciente a recontar essa história -, a importância do resgate dos bancos positivos de memória, autoeficácia e superação (influenciando o viés perceptivo sobre o evento), o papel dos "Cartões de Enfrentamento" - frases afirmativas que traduzem sínteses terapêuticas adaptativas para serem lembradas e cultivadas diariamente.
Com a ajuda do terapeuta, o paciente então delimita com precisão o "Estado Atual" em que se encontra e o "Estado Desejado" (como quer sair do processo terapêutico). Nesse momento, é importante que o terapeuta confira as expectativas do paciente em relação ao resultado do tratamento psicológico, inclusive se são exequíveis ou não. Não raro, os pacientes trazem expectativas milagrosas e inalcançáveis (exemplo: quero apagar isso da minha memória), que certamente causarão frustração.
Os dados de realidade devem ser esclarecidos para que o paciente compreenda desde o princípio o caminho que vai percorrer durante o processo para depois atingir os resultados esperados.
O "Estado Desejado" pode ser investigado com perguntas simples (exemplo: "Qual é o seu objetivo nesse processo terapêutico?"; "Como você deseja estar ao final da Psicoterapia?") e deve ser resgatado em exercícios de visualização ao longo do processo. A consciência do objetivo resgata o sentido da jornada. Os objetivos definidos pelo paciente promovem a conexão com o desejo de mudança, como também a razão pela qual está trabalhando consigo mesmo.
O Bem-Estar
O psiquiatra americano Robert Cloninger dedicou décadas de estudo à compreensão do bem-estar e afirmou que a negligência de métodos que valorizem as emoções positivas, o desenvolvimento da personalidade, a satisfação na vida e a espiritualidade, assim como o foco exclusivo na enfermidade e no sofrimento mental - explicam a dificuldade dos profissionais da saúde em melhorar o bem-estar geral dos pacientes.
É natural que os psicólogos e psiquiatras concentrem a atenção na remissão de sintomas que os pacientes apresentam. Contudo, quando o tratamento enfatiza apenas o sintoma (dor, sofrimento) é como se alguém orientasse um endereço para uma pessoa perdida, apenas com referências de caminhos que ele não deve seguir. Quando estamos perdidos no labirinto da dor, precisamos ter referências "para chegar ao bem-estar". O trauma pode matizar a percepção de tal maneira que o repertório do prazer do sorriso e da vivência agradável se torna quase esquecido pelo distanciamento.
Portanto, a Psicoterapia deve igualmente abordar o sofrimento, a fragilidade e os temores, assim como as qualidades de experiências que tornam a vida mais saudável e interessante. É necessário um equilíbrio entre a atenção direcionada ao alívio do medo e o trabalho alinhado à construção da força. A honestidade em relação às fraquezas e dificuldades é muito importante, assim como em relação aos êxitos, vitórias e atos de coragem. Essas considerações podem abrir as portas para a exploração consciente de crenças e pressupostos que norteiam comportamentos.
Finalmente, considero que construímos o processo de superação sobre os valores e capacidades que temos e não sobre o que nos falta. Lembrar das situações de superação anteriores ao trauma - sejam essas da infância, adolescência ou idade adulta - favorece a atenção para os valores e talentos que naturalmente fortalecem as capacidades de enfrentamento bem-sucedido.
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Sete fatores
Segundo especialistas, a resiliência psicológica apresenta sete fatores: 1) Administração das Emoções, 2) Controle dos Impulsos, 3) Empatia, 4) Otimismo, 5) Análise Causal, 6) Auto Eficácia e 7)Alcance de Pessoas. Para ler detalhes de cada fator acesse: http://www.eca.usp.br/njr/espiral/papiro35b.htm
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Lançamento
- Recém-lançado pela editora Roca, o livro Trauma e Superação - O que a Psicologia, a Neurociência e a Espiritualidade Ensinam faz uma minuciosa reunião de contribuições científicas atuais sobre o tema e ensina o que fazer, na prática, para evitar a caracterização do trauma, assim como as estratégias de superação que facilitam significativamente a melhora da qualidade de vida. A obra também mostra depoimentos de pessoas que cresceram e se desenvolveram com base nos aprendizados adquiridos em suas experiências dolorosas, além de relatar o tratamento e a prevenção do trauma psicológico
Referências
Julio Peres (2009). Trauma e Superação: o que a Psicologia, a Neurociência e a Espiritualidade ensinam. Editora ROCA.www.julioperes.com.br
Julio Peres é psicólogo clínico, doutor em Neurociências e Comportamento pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo e pós-doutorado pelo Center for Spirituality and the Mind, University of Pennsylvania
Fonte:
http://www.revistafilosofia.com.br/ESPS/Edicoes/44/imprime152437.asp / Portal Ciência e Vida



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